atualizado em 08/09/2010
Memória FSM

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FSM CARACAS - Gigantinho 2 – A missão (primeira parte)

Gilberto Maringoni

Discurso de Hugo Chávez em Caracas, uma continuação de sua fala no ginásio Gigantinho em Porto Alegre, pede que o Fórum Social ajude na formação de uma frente antiimperialista e gera polêmica.

CARACAS - A vida é pouco sutil na Venezuela. Tudo é superlativo. A percussão dos tambores é forte, as comidas têm cheiros marcantes, as roupas pendem para o espalhafato e o presidente é Hugo Rafael Chávez Frías. Ninguém fica indiferente aos atos e palavras deste último.

O mandatário adora os paroxítonos no fim das frases. Sempre termina cada uma delas em tom crescente. Dosa expressões grandiloqüentes com quase sussurros ao microfone, criando uma musicalidade vocal magnética. Fazendo longos apostos, parece apartear a si próprio constantemente, sem cair na monotonia. Em suma, um prosador de mão cheia.
Sua fala no ginásio Poliedro, já comentada aqui na Carta Maior, na chuvosa noite de sexta-feira, 27 de janeiro, motivou horas de comentários entre os participantes do VI Fórum Social Mundial. Antes de examiná-la, façamos, como Chávez, um pequeno parêntese.

Detalhe raro
Aquela uma hora e 43 minutos de alocução foi precedida de um detalhe raro em manifestações dessa natureza por aqui. A maioria dos 20 mil participantes levantou-se e, de mãos dadas, cantou a versão castelhana da Internacional, com o presidente puxando o coro.
O usual é entoarem Gloria al bravo pueblo, o hino nacional da Venezuela, composto em 1810. A canção dos comunistas e socialistas foi historicamente apoderada pela Ação Democrática, um dos dois partidos conservadores que dominou a cena política entre 1961 e 1998. Auto proclamada “social-democrata”, a agremiação era filiada à Internacional Socialista e adotava a canção em suas apresentações públicas.

Agora, por iniciativa do MST brasileiro e outras forças da esquerda do continente, o hino composto logo após a Comuna de Paris, em 1871, foi entoado pela primeira vez pelos chavistas.

Disputa de rumos
A fala de Chávez, pedindo um encontro mais propositivo e conclamando a formação de uma frente antiimperialista, é parte de uma disputa de rumos entre os participantes do Fórum Social Mundial, explicitada mais claramente em janeiro de 2005, em Porto Alegre. Aquele foi, tudo indica, o mais político dos Fóruns. Uma mudança nas regras, possibilitando a participação de quem quisesse, e acabando com as atividades pautadas pela coordenação – como depoimentos e grandes conferências – permitiu a presença de partidos políticos e governos. Essas duas categorias, tidas anteriormente como exteriores à chamada “sociedade civil”, puderam articular suas atividades e integrar-se plenamente ao encontro. E as apresentações dos presidentes Lula e Chávez, em dias diferentes, no ginásio Gigantinho, consolidaram uma pauta mais calcada na vida política real.

O mandatário venezuelano saiu literalmente aclamado da capital gaúcha, como o grande líder popular do continente, enquanto a Lula, por seus próprios atos e opções, foi reservado o papel de coadjuvante.

Um fato pouco divulgado, mas importante, naquela ocasião, foi a divulgação do chamado “Manifesto do hotel San Rafael”. Nele, vários intelectuais, como José Saramago, Eduardo Galeano, Emir Sader, Ignacio Ramonet, Samir Amin, José Luís del Roio, dentre outros, fizeram um apelo para que o FSM, guardadas suas características de autonomia e pluralidade, apresentasse algumas bandeiras comuns e consensuais.

Articulações anteriores
Mas a definição mais ousada daquele Fórum aconteceu quase em seu final. Foi a escolha da sede da edição seguinte. A candidatura mais forte era Caracas. Havia resistências. Alguns membros da coordenação temiam o aparelhamento do FSM por parte do governo local. No fim, após vários debates, decidiu-se pela realização de um Fórum policêntrico, baseado em Caracas, Bamako (Mali) e Karashi (Paquistão).

Os meses que precederam a chegada dos ativistas à capital venezuelana foram caracterizados por uma intensa mobilização.

O economista egípcio Samir Amin e o padre belga François Houtart, dirigentes do Fórum Mundial das Alternativas, a mais importante rede de entidades atuantes no FSM, foram dois dos promotores de uma reunião marcada para 18 de janeiro, em Bamako, um dia antes da realização da etapa africana do FSM. Aproveitando o cinqüentenário da conferência de Bandung, que criou o Movimento dos países não-alinhados, ambos planejaram a conformação de uma frente antiimperialista, a partir de entidades participantes do movimento antiglobalização.

Outra iniciativa coube ao jornalista francês Ignacio Ramonet. Em editorial recente do Le Monde Diplomatique, ele fez um apelo para que o Fórum Social Mundial, vencidas as edições e etapas dos anos iniciais, não se torne inócuo, pela ausência de proposições formais. O receio de Ramonet é a de que o encontro torne-se folclórico e funcional ao sistema, como parte de uma contestação consentida.

O “Chamado de Bamako”, documento de 15 páginas, saído do encontro extra-fórum, acabou se tornando o grande tema informal da semana caraquenha e a materialização da já falada disputa de rumos do FSM. Trata-se de uma carta de um grupo de participantes, alertando para as características imperiais e regressivas do capitalismo contemporâneo. O texto busca a unificação de algumas lutas, como a negação da guerra, das armas nucleares e das bases norte-americanas pelo mundo, além de afirmar a defesa do caráter público dos recursos naturais. No fim, aponta uma alternativa socialista.

Enxugar a programação
Já em Caracas, ao longo da última semana, outra questão se evidenciou: a necessidade de se “enxugar”a programação do Fórum. Das 1,8 mil atividades planejadas, centenas não se realizaram pelo simples fato de que seus organizadores e participantes não deram as caras. Isso redunda em um prejuízo não calculado. Toda uma infra-estrutura de aluguel de local, cadeiras, tradução e aparelhagem de som é montada para não ser utilizada. No aeroporto de La Carlota, por exemplo, um dos sítios de atividades, a maioria das gigantescas tendas, com capacidade para 400 pessoas, permaneceu vazia todo o tempo. Pelas regras atuais do FSM, qualquer um pode inscrever uma atividade pela internet, sem maiores responsabilidades.

Com essas preliminares, o Fórum de Caracas iniciou suas atividades, numa atípica semana chuvosa para esta época do ano. Ao mesmo tempo, centenas de atividades atraíram milhares de pessoas. Possivelmente, a mais importante delas tenha sido a assembléia de movimentos sociais, que tem a característica de delinear uma pauta de atividades comuns a diversos países.

Mas esses e outros emocionantes assuntos você vai ler na segunda parte deste artigo.








 
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