As críticas recentes ao Fórum Social Mundial são movidas por ótimas intenções, mas têm um sentido retrógrado. Pretendem introduzir no altermundialismo as lógicas que marcaram a esquerda no século 20 – e a levaram a um fracasso histórico.
“Muito se exigirá daqueles a quem muito se confiou”, teria dito, certa vez, o Cristo. É possível que a mesma sentença valha para os projetos que despertam a esperança coletiva, como o Fórum Social Mundial (FSM)1. Às vésperas de sua 6ª edição, dois textos2, estampados em publicações de enorme visibilidade na galáxia altermundialista, sustentavam que o grande encontro mundial das alternativas está a um passo de se esgotar.
Seus autores estão ligados à história do encontro inaugurado em Porto Alegre. Ignacio Ramonet é o autor original da célebre frase: “Um outro mundo é possível”. François Polet é assistente de François Houtart, figura destacada no Conselho Internacional do Fórum3. O argumento dos dois textos é muito semelhante e pode ser resumido em tres teses essenciais. a) Ao se desdobrar, todos os anos, em milhares de atividades e centenas de proposições sem hierarquia entre si, o FSM mantém seus participantes fragmentados e se reduz a uma feira “folclórica” de idéias e boas intenções; b) O caminho para evitar que este grande projeto se perca é fazer do Fórum uma grande “assembléia geral da humanidade”, onde sejam escolhidas ações prioritárias, a ser adotadas por todos os participantes; c) O primeiro passo foi dado em Porto Alegre, em janeiro de 2005, quando dezenove intelectuais lançaram, do Hotel San Raphael, um manifesto indicando doze bandeiras que o altermundialismo deveria empunhar, para deixar de ser “moralmente vitorioso, mas sem eficácia4”. Particularmente no final do texto de Ignacio Ramonet, sugere-se que, apenas por meio das ações de governos como o de Hugo Chávez, é possível evitar que o neoliberalimo seja uma fatalidade
As melhores intenções
Não deve haver qualquer dúvida sobre as boas intenções de Ramonet e Poulet. Seu discurso é um eco sonoro da tradição revolucionária do século 20. Este texto procura argumentar, porém, que seu diagnóstico é falso e sua proposta essencial, desastrosa. O movimento altermundialista não é ineficaz. Como se verá no próximo artigo desta série5, ele tem promovido mobilizações notáveis (algumas muito conhecidas, outras menos) e evitado a concretização de projetos essenciais para o capital. Sua conquista mais importante está, contudo, no terreno das idéias – este espaço onde se decide se os seres humanos estão dispostos a construir novas relações sociais, ou condenados a esperar impotentes por um futuro que virá a despeito de sua vontade.
Em pouco mais de uma década6, o altermundialismo contribuiu decisivamente para transformar o ambiente ideológico do planeta, ao resgatar a possibilidade de emancipação social. Em meados dos anos 1990, a perspectiva de superação do capitalismo era vista como algo ultrapassado ou mesmo perigoso. A derrocada dos regimes burocráticos (porém, auto-intitulados “socialistas”) do Leste Europeu e da Ásia havia espalhado a idéia de que a democracia e o respeito às liberdades somente podiam sobrexistir em sociedades que aceitassem ser comandadas pelas forças do mercado – ou seja, pela busca incessante do lucro e pela idéia de que os indivíduos devem aspirar apenas à satisfação de seus interesses egoístas7. As privatizações, o desmonte das leis e regras sociais que “afastam” investimentos e a abertura das economias às transnacionais eram vistas como sinais de modernidade.
Dez anos depois, este encanto está desfeito. Uma parte expressiva e crescente da opinião pública, em inúmeros países, tornou-se partidária de valores cujo pontecial anti-sistêmico é evidente. Alguns exemplos: a luta pelos direitos humanos está ainda mais presente na agenda das sociedades, mas ganhou outro sentido. Ela significa agora que a garantia de uma vida digna (nos aspectos político, econômico, social, cultural e ambiental) dever ser assegurada a todos, independentemente de poder aquisitivo – o que exige uma lógica que contraria a do capitalismo.
Além disso, espalha-se rapidamente a sensação de que as democracias “de mercado” são, na verdade, fachadas ocas. As decisões que realmente importam são tomadas sem participação dos “representantes” do povo, e contra seus interesses. Os Estados Unidos, país que melhor simboliza o ideal capitalista, são identificados por uma maioria como símbolo de injustiça e brutalidade. Fala-se em construir formas diretas de democracia e estigmatizar o uso da força, duas idéias cujo sentido tende a ser incompatível com alienação e desigualdade.
Por que a emancipação social reviveu
Dois fatores conspiraram para a mudança de cenário. Por dificuldades internas, que decorrem de seu caráter ultra-conservador e excludente, o capitalismo contrariou rapidamente as promessas que fizera. A multiplicação das crises financeiras e os sacrifícios impostos às sociedades, a pretextos de evitá-las, desfizeram os sonhos de prosperidade e conforto. Mas uma interpretação objetivista não seria suficiente para explicar uma mudança tão profunda na disputa pelas corações e mentes8.
Se a idéia de emancipação social saltou das prateleiras veneráveis da História para desembarcar no carnaval das lutas sociais, é porque livrou-se do que a prendia ao mundo dos mortos. Um novo projeto transformador precisa enfrentar o capitalismo do século 21. Para isso, não pode se apoiar nas respostas oferecidas (alias, sem êxito...) às fases já passadas do sistema.
Além de espaço aberto para articulação de ações comuns, os FSMs t^em sido um laboratório formidável de ci^encia social, onde se reelaboram permanentemente as teorias da transformação. Esta usina de idéias tem pelo menos duas características notáveis. Ela coloca em contato todas as vertentes emancipatórias. Os marxismos, o gandhianismo, o feminismo, os crtistianismos libertadores, as teorias de Gaia, o terceiromundismo, o humanismo e outras dialogam e se enriquecem permanentemente. Estão presentes, como influ^encia teórica, nas atividades auto-organizadas dos Foruns, onde é cada vez mais comum o encontro de participantes de m'ultiplos países e culturas. Mas esta é, exatamente, a segunda novidade relevante. O debate de idéias não se dá no plano acad^emico, nem no das direções partidárias. O Fórum quebra as barreiras entre teóricos e ativistas. Intelectuais de projeção internacional e líderes de correntes políticas debatem com todos os outros participantes nos mesmos ambientes, onde não há verdades, nem lideranças, pré-estabelecidas.
Ao invés de hierarquias, o grande laboratório
Também aqui os Fóruns Sociais e o altermundialismo estão produzindo os primeiros resultados. A recusa a repetir as velhas fórmulas, a abertura para aprender a partir de m'ultiplos pontos de vista e a diluição das antigas hierarquias partidárias e acad^emicas estão permitindo o nascimento de uma nova cultura política. ‘E provável que o sociólogo portugu^es Boaventura Santos Souza tenha sido quem primeiro identificou sua marca central. Num artigo publicado logo após o I FSM, ele afirmava que, para uma nova proposta de emancipação social, a diversidade seria um valor tão importante quanto a igualdade – e poderíamos aspirar simultaneamente a ambas...
A nova cultura política tende a rejeitar todas as tentativas de hierarquização (que atentam contra a igualdade) ou de uniformização (que violam a diversidade) – tanto as que partem do capitalismo, quanto das velhas formas de luta contra ele. Não há sujeitos sociais “históricos”, mais capazes do que outros para liderar a transformação do mundo. Náo há campanhas que sejam, a priori, mais relevantes que as demais. Não há direções – nem partidárias, nem intelectuais – autorizadas a definir estas campanhas em nosso nome, fora de nossos espaços de diálogo.
A busca – necessária – de ações e estratégias comuns precisa ser feita a partir do diálogo criativo e perseverante entre os próprios movimentos e intelectuais, da identificação de objetivos comuns, da trama de propostas conjuntas que valorizem as identidades de cada um dos sujeitos envolvidos, ao invés de anulá-las ou diluí-las.
Este conjunto de princípios não é apenas um código de boas maneiras que os participantes dos Fóruns Sociais estabelecem entre si. ‘E possível que neles estejam, também, pistas para um novo projeto emancipatório.
Para outro capitalismo, outra utopia
Em sua nova fase, o capitalismo promove a hiper-concentração de riquezas, por meio da acumulação e punção financeiras; da extração maciça de mais-valia em ind'ustrias de alta tecnologia (e quase sem operários); da transformação dos serviços p'ublicos em mercadorias. Além disso, procura multiplicar seus mecanismos de dominação, antes concentrados no Estado. Por um lado, recorre a instituições internacionais “livres” da democracia (OMC, FMI e Banco Mundial, em primeiro lugar) e aos diktats dos mercados financeiros. Por outro, busca a colonização das mentes, por meio da mídia, da publicidade, do entretenimento.
Sob estas condições inteiramente novas, que sentido há em recorrer às velhas estratégias, que reduziam a política à “conquista” do poder de Estado – e que, por isso, enfatizavam a necessidade de identificar «sujeitos histórios» e construir partidos dirigentes9?
Não teremos, ao contrário, o direito de nos servir do Fórum Social Mundial – este magnífico laboratório de sujeitos, ações comuns, sensibilidades e idéias – para reinventar a luta pela superação do capitalismo? E se, por exemplo, for possível faz^e-lo a partir de “formas abertas10”: a partir de m'ultiplas iniciativas anti-sist^emicas, desencadeadas por sujeitos sociais que se reconhecem no FSM e que v^eem nele não um espaço para “escolher” campanhas prioritárias, mas para articular, potenciliazar e dar sentido comum às que já estão em curso?
As velhas esperanças e as novas
A onda de críticas conservadoras ao FSM desconhece, ou menospreza, na prática, as possibilidades do grande laboratório. Está entusiasmada pelas conquistas reais do governo de Hugo Chávez, na Venezuela, e pela série de vitórias eleitorais que a esquerda parece prestes a alcançar, na América Latina11. Não há nenhum motivo para negar a novidade e a relev^ancia dsste fato. ‘Africa e América Latina foram as vítimas principais de dois momentos decisivos da globalização capitalista: a expansão colonial dos séculos 16-18 e a globocolonização iniciada em 1980. ‘E uma alegria perceber que, em um destes continentes, começam a surgir também resist^encisas institucionais, talvez tão importantes quanto as lutas de libertação e formação dos Estados Nacionais latino-americanos, nos anos 1800 – ou, para usar um exemplo mais recente, o nacional-desenvolvimentismo dos anos 1940-1970.
Mas por que esta hipótese, tão bem-vinda, deveria levar o altermundialimo a renunciar às avenidas pós-capitalistas que abriu? Por que precipitar a «escolha» de campanhas supostamente capazes de «unificar» o mundo dos Fóruns Sociais? Por que prop^o-las a partir de pequenos grupos, reestabelecendo a barreira entre os que lutam e os que pensam e violando o compromisso simult^aneo com a igualdade e a diversidade12?
Le Monde Diplomatique, o Centro Tricontinental e o Fórum Mundial das Alternativas t^em sido fontes inspiradoras do altermundialismo, desde o período de sua gestação. As críticas precipitadas que fazem agora devem ser vistas como um estímulo intelectual ao mundo do FSM. Do mesmo modo, esta “crítica da crítica” ‘e feita com a certeza de que Ignacio Ramonet e Fran’cois Poulet não desistirão da viagem, ao primeiro apelo das sereias da velha tradição.