atualizado em 31/07/2010
FSM 2005

20.08.2004
FSM 2005: Grupo de Trabalho de Cultura

NOTA CONCEITUAL

A cultura no FSM 2005
Grupo de Cultura do Comitê Organizador Brasileiro


Este texto é um resumo de idéias desenvolvidas nos últimos anos pelo Grupo de Trabalho de Cultura do Fórum Social Mundial. Este grupo funciona em São Paulo, mas recebeu colaborações de companheir@s de vários estados brasileiros. Ele reúne, ainda, algumas contribuições internacionais (Índia, Argentina, França e Itália) e é, sobretudo, um convite para novas reflexões sobre a centralidade da cultura no processo do Fórum Social Mundial.

Em um mundo que sobrevaloriza a mercadoria, a arte e a cultura são transformadas em meios sofisticados de acumulação de capital, reproduzindo a lógica mercantil. Vários modelos de organização social relacionam-se de forma perversa com os bens culturais, impondo critérios unicamente de mercado à sua produção, distribuição e apropriação.

A produção artística e cultural contemporânea, em especial após o advento da “indústria cultural”, tem se confundido num ritmo vertiginoso com práticas de mercado, advindo daí uma concepção fetichizada da cultura e da arte, como se contivessem, em si mesmas, valores universais ou universalizantes. Este estado de coisas reforça a concorrência e o individualismo, contribuindo para a alienação, a passividade e a despolitização.

Em nome de valores com os quais não temos qualquer identidade (Frei Betto e Michel Löwy, num texto parra o FSM 2003, idenficaram três destes valores: o dólar, o euro e o iene!), surgem práticas totalitárias que tentam impor um modelo único de produção do imaginário. Se o mundo não pode ser resumido à mercadoria, as práticas culturais, em sua enorme diversidade de manifestações, e as atividades artísticas, devem ser, necessariamente, um espaço ativo para o exercício livre das idéias e a superação das desigualdades de toda ordem.

A luta por um, ou vários, mundos possíveis, é inseparável da luta por outras concepções e práticas artísticas e culturais, opostas à idéia do pensamento único, em geral eficazmente difundido pelos meios de comunicação de massa. Este esforço envolverá muitos sujeitos sociais e o reforço de valores como a solidariedade, a justiça, a igualdade, a autonomia, a autodeterminação e o respeito à diversidade.

O Fórum Social Mundial pretende ser um espaço de encontro e articulação para grupos de artistas e movimentos culturais que procuram aprofundar suas reflexões e definir caminhos para a transformação social. Neste sentido, é preciso reconhecer a força política das identidades sociais e culturais (a negritude, o feminismo, as religiões, as minorias sexuais) e seu poder organizador de lutas setoriais articuladas frente aos adversários comuns. Isto significa reafirmar a utopia de criar “sociedades plurais” baseadas, simultaneamente, na diversidade (cultural) e na luta contra a desigualdade (social e econômica).

Ao desconstruir a lógica mercantil da cultura dominante, o FSM deve evidenciar de forma prática novas operações simbólicas, potencializando, assim, um novo tipo de mobilização que contribua para a construção de práticas culturais, artísticas, sociais e políticas emancipadoras. Para isso, é preciso abordar o bem cultural – e o complexo processo que ele envolve – em sua totalidade, da produção à circulação, dos conceitos aos modos de operação.

A arte desempenhou papel fundamental na história da humanidade, a percepção profunda de sua própria época e das contradições sociais nela expressas, e seu poderoso papel libertador, não deveriam ser subestimados, nem tampouco submetidos aos cânones da indústria do entretenimento. No âmbito dos movimentos políticos, a arte não pode se reduzir a acompanhamento de outras práticas, consideradas centrais, ou a mero instrumento de doutrinação.

Também é necessário refletir sobre o papel dos meios de comunicação de massa e da imprensa. O violento processo de globalização tem, entre tantos outros efeitos, incorporado parte da mídia e dos sistemas de comunicação, transformando-os em superconglomerados do controle da informação e do imaginário. A independência jornalística, por exemplo – segundo os ideais liberais da função da imprensa –, tornou-se impraticável, ou muito difícil, nos novos marcos do capitalismo. A contradição entre mercado e democracia se manifesta também no lugar social que a imprensa ocupa no mundo de hoje. O mercado não é capaz de prover o direito à informação de que deveria ser titular o cidadão. A imprensa invadida pelo entretenimento subalterno e pífio, torna-se pífia e subalterna.

Além de questionar o controle do imaginário, é indispensável a reflexão sobre as "formas" como nos relacionamos com os bens culturais. Precisamos, portanto, discutir as condições de produção e exercitar novas maneiras de expressão cultural e artística, incluindo, por exemplo, nossas relações cotidianas, nossa ordem de prioridades e os tipos de atividades que organizamos (mesas-redondas “quadradas”, debates “de mão única”, diálogos “monológicos” etc.).

A fim de exercitar estas novas maneiras de expressão, o Fórum Social Mundial reconstruiu seu formato. O FSM 2005 será concebido e construído, simultaneamente, como evento (o que é, em certa medida, inevitável) e também como processo, permitindo, assim, relativizar a noção de acontecimento isolado e pontual e, por outro lado, destacando sua dinâmica horizontal e continuada. Ele será desenhado a partir de perspectivas integradoras e articuladas. Seu processo pretende ser mais representativo e popular. O encontro será realizado na orla do Guaíba, em espaço aberto e aglutinador; os grupos de economia popular e solidária abastecerão o encontro e a preocupação com um ambiente sustentável e de respeito à natureza serão fundamentais.

O FSM é um espaço aberto à pluralidade cultural e facilitador de uma convivência baseada na diversidade, com a tarefa de, mais do que apontar soluções, multiplicar iniciativas que se transformarão em ações. É a partir da multiplicidade de culturas que se constroem outros valores, novas formas de sociabilidade e referências simbólicas. No FSM 2005, devemos pensar a cultura como instrumento que favoreça o intercâmbio entre atores sociais que vivem sob o peso da cultura e da arte hegemônicas.

O GT de Cultura do FSM pretende acolher e apoiar o maior número possível de formas culturais e artísticas, valendo o pressuposto delas expressarem a recusa de tendências hegemônicas impostas pelos processos da globalização neoliberal e por todas as formas de neocolonização. Portanto, a construção de atividades culturais e artísticas em Porto Alegre 2005 deverá estar em sintonia com a Carta de Princípios do FSM.

Em meio a tantas novidades as culturas representadas no FSM terão papel fundamental para garantir diversidade e participação popular, para que isto ocorra, é necessário à integração e envolvimento de artistas, grupos que trabalham com arte, movimentos populares e organizações, não apenas durante o Fórum, em Porto Alegre, mas desde já, atuando como protagonistas nesta construção.


Um convite tentador, cheio de desafios
A Cultura teve papel decisivo na construção do FSM 2004, em Mumbai. Noventa por cento dos grupos participantes eram artistas envolvidos em atividades práticas artísticas. Por isso, o GT de Cultura considera indispensável incentivar e criar condições para a participação maciça de artistas e ativistas da área cultural no processo de facilitação das atividades e articulações do FSM 2005.

É nosso desafio desenvolver o processo de discussão de forma realmente coletiva, valorizando a participação e permitindo a circulação de informações. Queremos assegurar, também, o diálogo com o conjunto das estruturas que organizam o FSM 2005, incluindo outros Grupos de Trabalho (metodologia, mobilização, comunicação etc) o Acampamento da Juventude, o Comitê Gaúcho e o Secretariado Internacional.

O GT de Cultura apresenta para o FSM 2005 propostas de grandes espaços coletivos de ação, pensados e realizados no FSM 2003 e adaptados agora ao novo formato e metodologia do FSM. As propostas são as seguintes: Memória Instantânea (projeto de vídeo-documentação e exibição), Museu Vivo da Diversidade (espaço aglutinador da memória dos Fóruns Sociais Regionais, Nacionais e Continentais; atelier vivo de interação e integração de diversas expressões culturais) e Diálogos de Rua (facilitar a interlocução e organização das propostas que têm a intenção de ocupar as ruas de Porto Alegre com apresentações e debates). A partir destes espaços de ação, pretendemos acolher boa parte das iniciativas culturais que estão sendo propostas na Consulta Temática. Os outros milhares de atividades que acontecerão no FSM 2005 serão atividades auto-gestionadas e contarão com apoio e, se possível, infra-estrutura fornecida pelo GT de Cultura.

Será grande o esforço para transformar o FSM 2005 em expressão de um encontro latino-americano, representante das camadas populares do continente, com caráter menos “institucional”.

Contamos com a sua participação neste Grupo de Trabalho para atuar ativamente na construção desta grande festa. Esta nota é um convite para que você e sua organização participem deste desafio.







 
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