atualizado em 31/07/2010
FSM 2005

20.08.2004
FSM 2005: Grupo de Trabalho de Sustentabilidade e Meio Ambiente

NOTA CONCEITUAL

1. Cenário
A discussão sobre sustentabilidade esteve presente de forma crescente, desde o primeiro Fórum Social Mundial. Em 2001, quando do nascimento do FSM, de forma quase tímida; em 2002, nos dias que antecederam ao II FSM, lotando dois dos salões da PUC de Porto Alegre com o evento “Um mundo sustentável é possível - Desafios da sustentabilidade planetária”. Já em 2003, o III FSM inscreveu cerca de 250 atividades de alguma forma voltadas para a temática do meio ambiente e da sustentabilidade. Um número sem dúvida expressivo, considerando-se o total estimado de cerca de 1.200 atividades autogeridas. Mas vale ressaltar um ponto: a maioria delas estava inscrita num só eixo, reservando-se praticamente um mesmo espaço, um mesmo público, os mesmos interlocutores. Pouquíssimas dessas atividades conseguiram sensibilizar platéias mais amplas; a maior parte delas voltava-se para dentro do próprio “setor” ou grupo associado aos proponentes do evento, sem muito espaço para o diálogo e para alianças intersetoriais com os demais participantes do processo do FSM.

Os atores que se engajam no FSM partem da premissa de que “um outro mundo é possível” e são movidos por variado conjunto de valores, bandeiras, estratégias de ações, conflitos e problemas prioritários. Há, de fato, grande diversidade – essencial e oportuna, a qual deve ser conhecida, reconhecida e ser objeto de diálogo. De nossa parte, não temos qualquer dúvida de que a receita para esse “outro mundo possível” precisa obrigatoriamente passar pelo cuidado com o ar que respiramos, com a água que bebemos, com a terra que plantamos, com o planeta em que vivemos. Assim como sabemos que essa água, essa terra e mesmo esse ar estão sendo distribuídos e usados de forma insustentável, excludente e ambientalmente injusta.

Nossa civilização caminha para a desestabilização do planeta, comprometendo das mais variadas maneiras a vida da maioria absoluta de seus habitantes. Essa certeza e a preocupação que ela gera não estão ainda presentes, entretanto, nos “corações e mentes” dos(as) responsáveis pela maioria das demais atividades do Fórum. A maioria do que clamam por justiça e direitos humanos por vezes deixam de incorporar nos debates a dimensão do direito e da justiça ambiental. Os que lidam com a democratização das políticas globais e nacionais e, portanto, com a “governança”, eventualmente deixam de perceber que os desafios da sustentabilidade demandam a criação e aprimoramento de mecanismos e valores próprios do controle social e da cidadania planetária, e deixam de valer-se de experiências de gestão participativa na área sócio-ambiental. E são precisamente as suas consciências, vontades, desejos e certezas que precisamos conquistar para a justeza da nossa luta. É nesse sentido que nos propomos a trabalhar por maior inserção da nossa temática na pauta do evento. Ou melhor: na própria cultura/ideologia que alicerçam o FSM.

2. Objetivo, estratégias e táticas
O processo do FSM constitui-se em oportunidade fundamental para ampliar o diálogo inter-setorial sobre o que é para nós a utopia da sustentabilidade. Nesse sentido, os portadores das mensagens e experiências voltadas para ela devem buscar encontrar formas e contextos de comunicar-se com outros segmentos e atores da sociedade civil participantes do Fórum Social Mundial cujo eixo de mobilização, trabalho ou concepção de mundo ainda não lidam com os desafios e visões da sustentabilidade. Nesse sentido e a partir das premissas anteriormente exposta, definimos as seguintes estratégias e táticas:


2.1. Transversalidade
É preciso que nos engajemos para que a sustentabilidade seja um compromisso de todos, sendo sua busca debatida e praticada em todos os Grupos de Trabalho (GTs) e no FSM de uma maneira geral, penetrando todos os debates. Cabe-nos buscar o diálogo por meio da apresentação das questões de sustentabilidade de forma que ela seja compreendida por todos os participantes do Fórum, permitindo a criação de sinergias com outros grupos e atores sociais e, assim, integrando-se às agendas da sociedade civil. Enfatizamos, portanto:

· a importância de atuarmos em conjunto com os outros GTs criados pelo Comitê Organizador Brasileiro (COB), principalmente os de Espaços, Economia Popular e Solidária, e Cultura;

· a inserção transversal da vertente ambiental nos trabalhos do FSM, permitindo a troca de experiências e a articulação para ações eficazes, que se contraponham a um processo de globalização excludente, que se caracteriza também pela criação de grandes passivos ambientais, pela desestruturação de comunidades tradicionais e pela destruição dos recursos naturais;

· o acompanhamento da lista e a participação em reuniões presenciais do GT Conteúdo e Metodologia, do Conselho Internacional do FSM, trabalhando na perspectiva de a sustentabilidade tornar-se uma diretriz programática na estrutura (formato e logística) e no conteúdo (discussões e alianças) compatível com o lema do FSM - “Um outro mundo é possível”;

· o fato de que, através da ampla divulgação desta Nota Conceitual esperamos, contribuir, ainda, para uma maior inserção da questão da sustentabilidade, de maneira transversal, nos vários fóruns regionais e temáticos que estão acontecendo no mundo todo rumo ao FSM 2005 de Porto Alegre;

· a busca de diálogo entre os vários setores da sociedade civil que participam do FSM faz sentido tanto para a construção ou consolidação de alianças como para superar a fragmentação de análises e propostas sobre o estado atual do planeta. A própria consolidação de diversas redes e grupos de trabalho, temáticos e/ou regionais, contribuiu muitas vezes para uma fragmentação da atuação e da análise do quadro global e nacional, embora tenha permitido fazer avançar a capacidade de intervenção de ONGs em questões mais focadas (conservação de mata atlântica, comércio, energia, desertificação e pobreza no semi-árido, entre outros). O FSM deve ser uma oportunidade estratégica de avançar na consolidação desses grupos, capacitando-os para ações e proposições de políticas;

· a importância de estabelecermos novos métodos e abordagens para superar essas leituras fragmentadas. Nesse sentido, devemos buscar formas de associar o debate sobre valores, ética e direitos com as ações e políticas de sustentabilidade, para que as reflexões e recomendações adquiram sentido prático e funcional.


2.2. Cultura, visão de mundo e sustentabilidade
O GT Sustentabilidade e Meio Ambiente vai contribuir para a busca de alternativas para um outro mundo que passam obrigatoriamente pela construção da sustentabilidade cultural, política, econômica, social e ambiental. Propomos que o conceito da sustentabilidade seja trabalhado nos diferentes espaços físicos das atividades do FSM, em campanhas de educação ambiental que se integrem ao movimento de construção da concepção desse mundo novo que desejamos. Para isso, defendemos algumas ações práticas:

· a elaboração e a adoção de critérios ambientais na definição dos espaços onde as atividades do FSM serão realizadas;

· o mesmo vale para a produção de resíduos, alimentação, utilização e produção de materiais, que deverão considerar o impacto ambiental de cerca de 100 mil participantes do evento;

· assim, comprometemos-nos a elaborar e executar, junto a várias parcerias, uma proposta de “Lixo Zero” durante o Fórum Social Mundial, baseada na experiência de eventos anteriores, nacionais e internacionais. O Lixo Zero pretende integrar a triagem de resíduos recicláveis, o reaproveitamento de resíduos orgânicos, a reciclagem de papéis, campanhas para economizar água e consumo de produtos sustentáveis, e a realização de feiras ecológicas;

· propomos campanhas de não-comercialização e de boicote aos produtos das linhas Coca-Cola e Pepsi-Cola, como símbolos das produções das grandes empresas transnacionais e corporações multinacionais;

· integrando a sustentabilidade à logística do FSM e a promoção da economia popular e solidária, propomos a denúncia e o repúdio ao consumo de transgênicos. Para o fornecimento de alimentação nos locais dos debates, defendemos os alimentos oriundos da produção de base familiar, preferencialmente orgânicos, proporcionando a seus produtores oportunidades de comercializar seus produtos e divulgar a sua produção, não apenas junto aos participantes, mas também junto ao público em geral;

· finalmente, entendemos que a construção de uma cultura da sustentabilidade é imperiosa para a promoção deste conceito: é preciso aceitar a alteridade, inverter valores, mudar hábitos, transformar padrões, quebrar tabus e derrubar preconceitos para propor novos paradigmas, fundados em outra percepção de desenvolvimento e de sucesso, de necessidade e de felicidade. Outro mundo é possível se outros modos de ver, crer, pensar, sentir e fazer se tornarem utopia, desejo e realidade.







 
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