A água é um dos temas em destaque nas atividades do Fórum Social Mundial 2005
Atualmente, 1,5 bilhão de pessoas no planeta não têm acesso à água potável. Cerca de 2,4 bilhões vivem em áreas sem qualquer tipo de tratamento sanitário. O mais grave é que, a cada dia, 30 mil morrem em função de doenças relacionadas à falta de qualidade da água – o número é, por exemplo, dez vezes maior que o de vítimas fatais do atentado ao World Trade Center, em 2001 (*).
Não por acaso, a água é um dos temas que desperta maior interesse na agenda do Fórum Social Mundial 2005, que será realizado de 26 a 31 de janeiro, em Porto Alegre. Das 162 atividades inscritas no espaço temático Afirmando e Defendendo os Bens Comuns da Terra e dos Povos, 32 estão diretamente ligadas a este recurso natural. A maior parte enfoca a privatização e a defesa do direito à água.
"Vivemos em um mundo que está pedindo socorro. O que a gente espera, nesta edição do FSM, é que as diferentes instituições, redes e coligações consigam montar planos de atuação em escala planetária, para que as lutas tenham possibilidade de vitória", destaca Tânia Pacheco, da Federação Brasileira das Organizações Não-governamentais, que é a facilitadora do espaço temático.
Personalidades como o economista italiano Ricardo Petrella, professor da Universidade Católica de Louvain, da Bélgica, defendem a adoção de um sistema de financiamento público, protagonizado pelos países desenvolvidos, para garantir o acesso à água nas áreas miseráveis do planeta. “Em 20 anos, a situação vai se agravar ainda mais. Estima-se que haverá 3 bilhões de pessoas vivendo na miséria absoluta”, justifica Petrella, colaborador do jornal Le Monde Diplomatique e autor de obras como O Bem Comum – Elogio da Solidariedade (1996) e O Manifesto da Água (2000). Ele critica a privatização dos recursos hídricos, que considera uma lapidação do patrimônio natural. “Não podemos assistir impassíveis à mercantilização da vida.”
Escassez e desperdício
O quadro de pobreza em países como o Marrocos, por exemplo, expõe a tragédia do uso inadequado da água – enquanto a maioria dos marroquinos consome apenas 15 litros diários per capita para matar a sede e cuidar da alimentação e da higiene (a quantidade adequada é de 50 litros), turistas hospedados em hotéis cinco estrelas se dão ao luxo de gastar até 1,2 mil litros.
No Brasil, a situação também é preocupante. Conforme o Ministério das Cidades, cerca de 45 milhões de brasileiros não têm água de qualidade para beber em casa (26 milhões nas cidades) e 83 milhões (mais da metade da população) ainda não conquistaram acesso à rede de esgoto. Para zerar o déficit de água e esgoto no país, calcula-se que será necessário investir 0,45% do PIB nacional (algo em torno de R$ 178 bilhões) nos próximos 20 anos.
Guerras do século XXI
Vale lembrar que menos de 2% das reservas de água doce do planeta estão disponíveis para o consumo humano e cerca de 80 países já enfrentam problemas de abastecimento. Para os especialistas, se o petróleo foi a causa de boa parte das guerras do século XX, a água deverá ser o principal motivo dos conflitos bélicos do novo século. Só nos últimos 30 anos, já ocorreram 52 disputas transnacionais relacionadas ao recurso natural.
Historicamente, a água tem sido o estopim de desavenças entre os seres humanos. “A palavra rival, de origem latina, remete àquele que usa a água do rio, o que dá a dimensão do problema”, ressalta Ninon Machado, coordenadora do GT Água do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais e diretora executiva do Instituto Ipanema, que realiza pesquisa avançada sobre economia e meio ambiente.
O Brasil compartilha 74 das 270 bacias hidrográficas situadas em regiões fronteiriças, o que lhe proporciona condição de se colocar como “potência solidária, e não dominadora”, acentua Ninon. “Ninguém é tão rico que não possa receber, nem tão pobre que não possa dar. Temos que atingir a integração latino-americana compartilhando saberes e tecnologias”, acrescenta ela.
No FSM 2005, as atividades relacionadas à questão da água estarão focadas na construção de um diálogo e um caminho, segundo Tânia Pacheco. Entre elas, destacam-se Ética da Água, Educação Ambiental e Planeta Água, além de uma atividade ligada à arte – a Oficina Água Doce.
Catástrofes climáticas
Se a água será o tema mais debatido no espaço temático Afirmando e defendendo os bens comuns da Terra e dos Povos, no FSM 2005, o segundo item mais concorrido é o clima, com 19 atividades inscritas. A pauta inclui o debate acerca do chamado Efeito Estufa, que é a elevação da temperatura média do planeta, causada pelo aumento da quantidade de gases poluentes (como o dióxido de carbono) na atmosfera, emitidos, principalmente, por veículos e usinas termoelétricas.
Uma reportagem divulgada pela imprensa internacional revelou, recentemente,detalhes de um relatório elaborado pelo Pentágono sobre o assunto. O estudo adverte que as catástrofes climáticas provocadas pelo aquecimento global do planeta poderão ocorrer já no período entre 2010 e 2020, e não daqui a 50 ou 100 anos, como se previa. Não custa lembrar que o presidente George W. Bush negou-se a assinar o Protocolo de Kyoto, pelo qual os países se comprometem a reduzir a emissão dos gases poluentes do Efeito Estufa até 2012.
Além de estiagens e inundações, o relatório do Pentágono prevê um cenário desolador graças ao derretimento das geleiras do Pólo Ártico. Icebergs bateriam na costa de Portugal e da Holanda, reduzindo drasticamente a temperatura no Hemisfério Norte, especialmente na Europa. Por outro lado, os militares norte-americanos temem a expansão de doenças tropicais e o agravamento dos conflitos bélicos entre os países, na corrida em busca de energia e recursos naturais.
O espaço temático Afirmando e defendendo os bens comuns da Terra e dos Povos, do FSM 2005, tratará ainda de temas como Justiça Ambiental, Consumo Sustentável, Transgênicos e Democracia Tecnológica, Segurança e Soberania Alimentar x Acordos Comerciais, entre outros. A facilitadora Tânia Pacheco destaca a atividade proposta por uma organização da Índia (Peixes Fora D'Água), relacionada ao desastre ecológico ocorrido no Golfo de Manar. “O meio ambiente possui uma diversidade muito grande de propostas procedentes da França, Moçambique, Japão e Bangladesh, entre outros países”, conclui ela.
(*) Os dados foram divulgados pelo economista italiano Ricardo Petrella, em conferência na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (RS).
Fontes recomendadas para reportagem:
Tânia Pacheco – Facilitadora do Espaço Temático Afirmando e Defendendo os Bens Comuns da Terra e dos Povosdo FSM 2005 - Tels: (21) 2565-7781 / (21) 9443-0143
Ninon Machado – coordenadora do GT Água do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais – (21) 2527-8747/ (21) 8168-0011
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