Fórum Social Mundial 2005 vai debater experiências educativas que transformam receptor em produtor da linguagem da mídia
A idéia é simples: crianças e adolescentes capazes de produzir um jornal ou um programa de rádio, certamente, não terão dificuldades de se comunicar com os colegas de classe, professores e familiares. Mais do que isso, desenvolverão com maior propriedade o senso crítico para lidar com a avalanche de informações que recebem, a cada instante, dos veículos da mídia convencional.
O conceito está na raiz da educomunicação – um novo campo de atividades sociais e culturais, reunindo educação e comunicação, que estará sendo debatido no espaço temático Comunicação: práticas contra-hegemônicas, direitos e alternativas, durante o Fórum Social Mundial 2005, de 26 a 31 de janeiro, em Porto Alegre.
Experiências de cidadania
A educomunicação tem como principal objetivo inverter a lógica que restringe o leitor de jornal ou o ouvinte de rádio à mera condição de consumidor. Dessa forma, o receptor ganha a oportunidade de ser também emissor e produtor da mensagem midiática. Não por outra razão, essas iniciativas podem ser descritas como verdadeiras experiências de cidadania.
“Definimos o novo campo como um conjunto de ações que se volta para a criação e o fortalecimento de ecossistemas comunicativos, abertos e democráticos, em espaços educativos”, sintetiza Ismar de Oliveira Soares, coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da Escola de Comunicações e Artes da USP. Durante o FSM 2005, ele estará participando do debate Rádio Jornal Escola, proposto pela organização Comunicação e Cultura, do Ceará.
Cabe distinguir a educomunicação do conceito de tecnologia educativa, que busca apenas melhorar a performance dos professores através do uso de ferramentas como a internet ou o vídeo. “A diferença fundamental é que a educomunicação coloca a tecnologia nas mãos do usuário, através da gestão democrática da linguagem da mídia”, observa o professor da USP.
Formação de educomunicadores
A educomunicação ganhou o primeiro impulso na década de 70, com a multiplicação de centros de documentação da cultura popular, em vários países da América Latina, que propunham uma comunicação alternativa como forma de resistência aos regimes autoritários do continente.
Nos anos 80, as Organizações Não Governamentais e as entidades ligadas aos movimentos populares tomaram a frente do processo, propondo a democratização dos meios de comunicação de massa. As experiências das duas décadas foram sistematizadas pelo NCE/USP, em pesquisa realizada de 1997 a 1999, propiciando a criação de cursos de formação de educomunicadores.
Exemplos práticos
O programa Educom.radio – Educomunicação pelas Ondas do Rádio, desenvolvido pelo NCE/USP, é um bom exemplo de como a teoria da educomunicação pode ser posta em prática. Em parceria com a prefeitura de São Paulo, o projeto atingiu 455 escolas do ensino fundamental da rede municipal.
O programa também foi implantado em assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, comunidades remanescentes de antigos quilombos e aldeias indígenas, nos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, em convênio com o Ministério da Educação. De 2000 a 2004, o NCE/USP formou educomunicadores em 1.500 escolas em São Paulo e no Centro-Oeste brasileiro.
Outra experiência bem sucedida é a do projeto JOVemPAZ, do Instituto Paulo Freire, que contempla atividades de rádio e jornal em escolas de Iguape e Ilha Comprida, no litoral paulista, de Osasco e da comunidade de Morro Doce (zona oeste da cidade de São Paulo). Além de ensinar a jovens e adolescentes os processos comunicativos, a leitura crítica e a produção da informação radiofônica, o projeto instala rádios comunitárias dentro das escolas.
A programação entra no ar, em geral, durante o recreio e nos horários de entrada e saída dos alunos. “Os programas radiofônicos são produzidos pelos estudantes e podem ser ouvidos em toda a área em torno da escola, permitindo que haja um espaço de comunicação com a comunidade”, salienta o diretor do IPF, Moacir Gadotti.
O JOVemPAZ compreende ainda um jornal escolar, permitindo que os alunos aprendam a escrever reportagens e chamadas de capa. “Além da parte estritamente técnica, os jovens trabalham as questões relativas ao idioma e à gramática”, diz Gadotti. Ele vai relatar a experiência do JOVemPAZ durante o FSM 2005, ao participar da atividade Educação para a mídia: em busca de conceitos democráticos, proposta pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação.
FSM 2005: prioridade às mídias alternativas
Em sua 5a edição, o FSM vai disponibilizar uma infra-estrutura de comunicação voltada especialmente para as mídias alternativas. As rádios comunitárias, por exemplo, terão dois estúdios exclusivos para que possam atuar em rede. A programação das emissoras será veiculada pela internet. Por outro lado, as tevês comunitárias também terão à sua disposição dois estúdios exclusivos. Haverá ainda uma sala de redação com 30 computadores reservados exclusivamente para os jornalistas das mídias alternativas.
Fontes recomendadas:
Ismar de Oliveira Soares, coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da ECA/USP
11 77165697/11. 91162131
Moacir Gadotti, diretor do Instituto Paulo Freire
11 30215536
Sites recomendados:
Educom.radio – Educomunicação pelas Ondas do Rádio
www.educomradio.com.br
www.usp.br/NCE
Instituto Paulo Freire
www.ipf.org.br
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