A Contribuição do FSM EUA: uma resposta a Chico Whitaker e Walden Bello Thomas Ponniah Thomas Ponniah*
Tradução: Beatriz Leandro
Introdução
As conquistas do FSM EUA contribuíram muito para os debates sobre o futuro do processo FSM. Em pronunciamentos recentes, Chico Whitaker e Walden Bello, ambos representantes do Comitê Internacional do FSM, discordaram sobre o futuro do mesmo.
Bello (diretor executivo do Focus on the Global South) disse que o FSM encontra-se hoje numa encruzilhada (1). Apesar de reconhecer que o processo contribuiu muito para a luta por justiça global, Bello sugeriu que a metodologia de espaço aberto, que, a princípio, não toma uma posição coletiva em questões tais como a guerra do Iraque e a OMC, estaria inibindo ações políticas substantivas.
Argumentou que havia mérito na acusação na qual o Fórum estaria se tornando “uma instituição descolada das lutas políticas globais atuais, e virando um festival anual com impacto social limitado”. O artigo terminava com a questão: “não seria hora do FSM pendurar as chuteiras e dar espaço para novos modelos de organização global de resistência e transformação?” (2)
Chico Whitaker, um dos fundadores do FSM respondeu a Bello argumentando que encruzilhadas não têm necessariamente que fechar caminhos (3). Disse que, ao mesmo tempo em que a Carta de Princípios do FSM não permite que os membros do Conselho Internacional se pronunciem em nome de todo o FSM, a metodologia de espaços abertos dá a oportunidade para que os movimentos construam coalizões globais e manifestos comuns. Portanto, para ele a encruzilhada do FSM era na verdade dois caminhos que podiam co-existir, não um como impedimento do outro, mas como fontes mútuas de inspiração. O espaço aberto poderia continuar a ser um espaço para os movimentos se articularem e proporem novos projetos políticos sem ter que falar em nome de todos os participantes do FSM.
Para que possamos avaliar atentamente as duas posições defendidas, precisamos refletir quais são as conquistas atuais do processo FSM. Nenhum Fórum recentemente expressou melhor o potencial deste processo com o Fórum Social EUA. Ele provou a exatidão de ambos argumentos de Bello e Whitaker, afirmando a importância da continuidade do processo FSM mas em bases muito mais inovadoras, decisivas e políticas.
O Fórum Social EUA, realizado de 27 de junho a 02 de julho em Atlanta, Geórgia, cidade natal de Martin Luther King Jr, atraiu mais de 10 mil participantes em mais de 900 oficinas. O slogan era “Outro Mundo é Possível, outro EUA é necessário”. Focando e ao mesmo tempo amplificando o processo global, este fórum nacional deu três grandes contribuições à batalha nos EUA.
Diferença
O Fórum Social EUA criou um espaço aberto onde os mais diversos movimentos populares de todo os EUA puderam se encontrar e discutir. Pela 1ª. vez os diferentes ativistas de todo o país puderam interagir coletivamente de uma maneira não-hierárquica e horizontal que facilitava a compreensão mútua, e a dinâmica de espaço aberto facilitava fisicamente este encontro. Se o espaço tivesse sido dominado por uma ideologia, como o socialismo por exemplo, ou uma estratégia, como o estatismo, não teria atraído tanta gente e tantos movimentos diferentes. O espaço aberto, como sustentava Whitaker, permitia que uma gama de ideologias e estratégias estivessem representadas. Nos EUA isto não só favoreceu o encontro de grupos diferentes ou divergentes de todo o país, mas também que eles se encontrassem de uma maneira nova e original.
Os espaços abertos fizeram com que os ativistas se focassem não nas diferenças, mas nos pontos em comum com outros movimentos sociais. Durante os anos 80 e 90 havia várias divisões entre as diferentes vertentes da esquerda norte-americana: socialistas, anarquistas, ecologistas, feministas, anti-racistas, ativistas gays, indígenas. Os movimentos não queriam trabalhar conjuntamente ou se frustravam continuamente uns com os outros. O FSM criou uma arena onde todas estas organizações sentiram que poderiam expressar sua própria agenda sem que ela fosse solapada por outras. Os participantes das plenárias vieram de comunidades que foram diretamente afetadas pelos problemas em questão. Movimentos de base falavam por si mesmos, sem intermediários. Logo o Fórum foi um espaço comum e auto-representativo e por causa disto pôde ser visto como algo construído por todos os movimentos.
A expressão das diferenças era tamanha que o FSM EUA parecia mais diverso do que os FSM dos últimos três anos. Desde 2004, na Índia, que um Fórum não ostentava tanta diversidade, não só dos membros das plenárias, mas de forma importante como palestrantes e facilitadores nas mesas, seminários e oficinas. Poderia-se dizer que os Fóruns de Mumbai e Atlanta simplesmente refletiram a heterogeneidade demográfica de duas das sociedades mais multiculturais do planeta. Poucas nações no hemisfério sul têm tantas religiões, culturas e línguas como a Índia. Analogamente, nenhum país do hemisfério norte tem, numericamente, tanta diversidade cultural como os EUA. No entanto, esta interpretação é parcial: o que foi marcante em ambos eventos não foi que eles simplesmente representaram o escopo cultural de seus países, mas sim que eles demonstraram sua diversidade econômica. Ambos Fóruns foram genuinamente eventos da base, com participantes de todas as classes econômicas e sociais, especialmente os mais pobres. Enquanto outras edições do FSM foram eventos marcantes e inspiradores, eles não representaram substancialmente os membros marginalizados, empobrecidos e explorados de suas sociedades.
A primeira grande contribuição do processo do FSM EUA foi sua capacidade de fazer possível a união de toda a variedade cultural e social dos movimentos norte-americanos.
A identidade da Diferença
A segunda contribuição do FSM EUA refere-se à identidade. Seguindo o conceito de espaços abertos, o Fórum ajudou a articular uma série de identidades comuns e progressivas – o que iniciou em Seattle em 1999 como o braço norte-americano do movimento antiglobalização hoje se tornou uma gama de movimentos nacionais alternativos da globalização. Ativistas norte-americanos que participaram do processo deste Fórum foram capazes de reconhecer claramente que as diversas formas de dissenso tais como a luta contra racismo, passeatas contra dívida, e protestos contra privatização, não são eventos separados e sim instâncias de uma dinâmica superior: a demanda pela justiça global.
O processo do Fórum Social consolidou inúmeras identidades comuns na diferença: negros/ pardos, estudantes/ trabalhadores e alianças ambientais e de justiça social. Estas coalizões estão sendo construídas no desejo de um outro mundo livre de discriminações evidenciado pelo furacão Katrina, o militarismo exibido pela perpetuação da guerra, do neoliberalismo que impede o acesso à Saúde a mais de quarenta milhões de cidadãos norte-americanos, da bio-devastação causada pelo aquecimento global. Em suma, o Fórum facilitou a criação do elemento comum, uniu identidades que englobam a abundância de movimentos que aspiram por um mundo onde todas as formas de vida são respeitadas.
Autonomia
Em terceiro lugar, o FSM, e agora o FSM EUA, promoveram uma revolução na imagem que os progressistas têm de seus oponentes e também deles mesmos. Desde de sua concepção os organizadores da dinâmica do FSM entenderam que os movimentos populares precisavam de um espaço de articulação autônomo de corporações e de partidos políticos. Isto foi um começo significativo.
Historicamente muitos progressistas pensaram que seu primeiro adversário fosse o mercado. A esquerda sempre entendeu o perigo que o livre mercado, as grandes corporações e o capitalismo colocavam para a sociedade. Os progressistas sempre souberam que a comoditização inevitavelmente levava à alienação. O mercado, na frase memorável de Marcuse, torna o homem unidimensional. Para controlar a comoditização, os antigos movimentos da esquerda queriam que o Estado regulasse a economia. No “1º. Mundo”, os social-democratas, tais como os políticos do New Deal norte-americano nos anos 30, tentaram regulamentar a indústria em benefício do público. No “2. Mundo”, o comunismo soviético tentou regulamentar a produção, e no “3º. Mundo”, o Estado de liberação nacional, Cuba por exemplo, tentou regulamentar sua atividade econômica (4). Logo, o estrato dominante da esquerda sempre pensou que o Estado poderia regulamentar o mercado e portanto libertar a população da exploração.
A crença no estatismo de esquerda foi testada inúmeras vezes durante todo o século vinte. Ela explodiu no começo dos anos 90 com a retração do Estado de Bem-Estar Social no “1º. Mundo”, com a dissolução do Estado soviético no “2º.”, e a perda de legitimidade do Estado de liberação nacional no “3º”. Desde então, os progressistas brigam com a perda de crença no Estado como o instrumento primeiro de libertação social.
Aprendendo com a história, os proponentes do processo FSM entenderam que quando o Estado aumentava seu poder em relação ao mercado ou vice-versa, em ambos os casos o ceticismo aumentava inevitavelmente. Ambos os modelos de produção e administração, tanto o capital como o Estado contemporâneo, tornaram-se proponentes de subordinação, estranhamento, empobrecimento, ao invés da auto-governança.
Contra esse adversário de duas cabeças, os movimentos populares no FSM EUA demonstraram o poder da solidariedade humana auto-organizada. Estes movimentos sucessivamente durante o Fórum pediram por uma sociedade participativa para desenvolver-se independentemente do mercado e do estado. Neste Fórum, os movimentos sociais norte-americanos aumentaram sua capacidade por uma auto-reflexão coletiva e soberana. Os ativistas no FSM EUA se liberaram coletivamente da hegemonia mental do Estado e do mercado ao propor uma nova imaginação: a libertação pode somente ser descoberta, explorada e expressada ao lançar as bases de novas formas radicais de democracia. Os movimentos podem pressionar os Estados, às vezes até trabalhar com eles, e preservar sua autonomia. A consolidação coletiva da importância da autonomia foi a terceira grande conquista do FSM EUA.
O Futuro do processo do FSM
As conquistas do FSM EUA deram crédito à defesa moral e constante que Chico Whitaker faz do FSM. O desafio que persiste, e isso foi o que Walden Bello reconheceu claramente, é que enquanto o processo do FSM local e globalmente facilita uma auto-reflexão coletiva - ele não produziu ainda uma auto-organização coletiva efetiva.
Houve inúmeras discussões sobre os projetos dos movimentos sociais globais, tais como a Chamada de Bamako e as propostas por partidos políticos globais (6), mas ainda não houve uma implementação factual. A guerra no Iraque continua, as mudanças climáticas persistem, a desigualdade no mundo inteiro permanece, e as grandes corporações ainda controlam o mundo. Enquanto os espaços abertos do FSM permitiram a criação de novas redes, eles ainda não deram vazão a projetos visionários.
Houve importantes eventos reativos, tais como os protestos contra as negociações da OMC - mas houve poucas alternativas que foram de fato implementadas pelos movimentos de justiça global. Este é o desafio transversal que o FSM enfrenta.
Enquanto o FSM facilitou a capacidade de reflexão local e nacional do movimento social global, ele ainda não deu, comparativamente, origem a conquistas palpáveis. A essência do argumento de Bello está certa: os facilitadores do processo do FSM devem inventar e formular processos mais inovadores que possibilitem de fato mudanças políticas significativas.
*Thomas Ponniah é membro da Network Institute for Global Democratization - uma das organizações fundadoras do COnselho Internacional do Fórum Social Mundial; membro do Sociologists Without Borders, e do Comitê Organizador do FSM Boston. Ele também é co-editor do livro Another World is Possible: popular alternatives to globalization at the World Social Forum, e autor de um vindouro livro sobre justiça global.
(1) Bello, Walden. “The Forum at the Crossroads”.
(2) ibid
(3) Whitaker, Chico. "Crossroads do not always close roads (Reflection in
continuity to Walden Bello)" http://www.wsflibrary.org/index.php/Crossroads_do_not_always_close_roads
(4) Por uma explicação substancial deste argumento, veja ´O Declínio do Império Americano´ de Immanuel Wallerstein.
(5) Ver http://www.openspaceforum.net/twiki/tiki-index.php?page=BamakoAppeal
(6) Ver http://www.nigd.org/globalparties
Leia o texto de Walden Bello:
Em castelhano: "El Foro en una Encrucijada" - http://www.forumsocialmundial.org.br/noticias_textos.php?cd_news=396
Em inglês: "The Forum at the Crossroads" - http://www.forumsocialmundial.org.br/noticias_textos.php?cd_news=395
Leia o texto de Francisco Whitaker:
Em castelhano: "Las encrucijadas no siempre cierran caminos (Reflexión en continuidad a la de Walden Bello)" - http://www.forumsocialmundial.org.br/noticias_textos.php?cd_news=397
Em inglês: "Crossroads do not always close roads (Reflection in continuity to Walden Bello)" - http://www.forumsocialmundial.org.br/noticias_textos.php?cd_news=407. Fonte: Tipo documento: Artigos de opinião Idioma: Português